Thursday, December 23, 2010

O presente de R.

Certamente, este foi um ano em que fui presenteada de muitas formas.

Houve um presente especial e que pode ser dito aqui.

Campinas, 21 de dezembro, antes da viagem para o Rio. O interfone toca, o porteiro mais antigo anuncia: "Quero te dar uma coisinha de Natal". Muito desajeitada, comento algo sobre a mala cheia. Desço como sempre, cheia de malas, correndo, partindo. R. me entrega uma caixa de biscoitos natalinos em forma de árvore de natal. Ela cabe na minha bolsa de mão! Dou um abraço nele. É inesperado, mas ele recebe. Entro no taxi com a velha sensação que a generosidade e o dom provocam em mim: um lado do coração dói, um outro se alegra, um outro ainda investiga esse mistério. Alguém me deu sem que eu tivesse pedido. Alguém a quem não falta o delicado essencial.

Feliz Natal para os meus leitores essenciais!

Friday, December 17, 2010

no meio do caminho da vida



Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fora pedra a areia ...
Jorge Luis Borges

Wednesday, December 15, 2010

passagens efêmeras

esse vento um pouco melancólico que passa por mim às vésperas de comemorar os meus anos.

Passa. Aliás, passar não foi o verbo do ano?

Tuesday, December 7, 2010

Laura e eu

- elas são lindas e são minhas, é a primeira coisa linda e minha! [...] as rosas estavam na mão da empregada, não eram mais suas, como uma carta que já se pôs no correio! não se pode mais recuperar nem riscar os dizeres! não adianta gritar: não foi isso o que quis dizer!


Esses são fragmentos do conto A imitação da rosa, de C.L., uma antiga obsessão. Como a protagonista, Laura, sempre achei que as rosas não poderiam ser minhas. E essa semana... As rosas estão na minha mão, na carta escrevi um parágrafo diferente, aquele que era meu, só meu, e foi isso mesmo que eu quis dizer.

Saturday, December 4, 2010

em tempo de espera

este blog relata que hoje foi a Festa do Livro da Laurinha, um rito que a autoriza a ler e a escrever. Ela estava de branco e com uma rosa nos cabelos, a minha sobrinha. Ela cantou, ela leu, o diploma era um livro escrito por ela. Leu como lê todas as noites sentada no sofá. Pensei em Quixote, pensei em Borges. Pensei nas noites infinitas com livros que eu quis infinitos. Pensei nos leitores que amo. Lá, estava ela, a Laurinha. Chorei. E não foi pouco.

Mas talvez a cena que fique incrustada na memória seja a de outro leitor. R. gaguejou, os ombros tremeram, as palavras não saíram. Por fim, um choro contido. O rubor. Esse foi o momento mais literário para mim, aquele em que as palavras não puderam ser ditas.

Tuesday, November 30, 2010

nos últimos dias, no taxi

sim, de tempos em tempos, alguma música me persegue. Entro em um taxi, e lá está ela tocando:

O Sol - Milton Nascimento

Compositor: Antônio Júlio Nastácia


Ei, dor!
Eu não te escuto mais
Você não me leva a nada
Ei, medo!
Eu não te escuto mais
Você não me leva a nada...
E se quiser saber
Pra onde eu vou
Pra onde tenha Sol
É pra lá que eu vou... (2x)
Ei, dor!
Eu não te escuto mais
Você não me leva a nada
Ei, medo!
Eu não te escuto mais
Você não me leva a nada...
E se quiser saber
Pra onde eu vou
Pra onde tenha Sol
É pra lá que eu vou
É pra lá que eu vou...
E se quiser saber
Pra onde eu vou
Pra onde tenha Sol
É pra lá que eu vou...
Yeah! Han!
Caminho do Sol, eh!
Lá lararará!
Caminho do Sol, eh!...
E se quiser saber
Pra onde eu vou
Pra onde tenha Sol
É pra lá que eu vou...
E se quiser saber
Pra onde eu vou
Pra onde tenha Sol
É pra lá que eu vou
É pra lá que eu vou... (3x)

Thursday, November 25, 2010

Dá coragem, quando a noite vem

copiando e colando:


Oi, Professora!!!!!
Aqui é a L., sua ex-aluna de Teoria Literária 1 do período passado. Tudo bem com você?
Lembra que, recentemente, eu te encontrei no corredor da faculdade e te falei de um livro de cartas da Clarice a suas irmãs? Então, nesse livro ( Minhas Queridas), está uma frase muito adequada à sua tese Molduras para o vazio.
Eu, sinceramente, não me lembro de tê-la visto na sua tese, então, se você já a conhecia, perdoe-me a redundância.


"Minha impressão é a de que eu trabalho no vazio, e para não cair eu me agarro num pensamento e para não cair desse novo pensamento eu me agarro em outro. É essa a minha vida mental." Berna, 01/07/1946
livro Minhas Queridas, p.127


Enfim, lembrei imediatamente de você e das suas incríveis aulas, das quais sinto muita falta! Achando qualquer coisa que julgar interessante para me mandar sobre Clarice, pode usar este meu e-mail.
Um beijo, professora!

Saturday, November 20, 2010

De manhã

deve ser por isso que gosto tanto de uma bela manhã:

Há uma espécie de comunidade entre as pessoas quando é assim cedo, como se o dia ainda não tivesse nos machucado muito.

Nuno Ramos

Note-se que o advérbio de intensidade faz muita diferença.

Wednesday, November 17, 2010

Boa noite

hoje troquei palavras com alguém muito querido. Pedi uma ajuda e a resposta foi tão cuidadosa e tão poética que, só agora, horas depois fui absorver o tanto que me foi ofertado. E, eu, vou dormir assim de coração quente.

Sunday, November 14, 2010

Para o futuro

escrever uma exaustiva análise do poema O elefante, de Drummond. Seguem alguns fragmentos finais abaixo:

Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.

Saturday, November 13, 2010

lição de Aristóteles

Destes casos, o pior é o do sabedor que se apresta a agir e não age; é repugnante e não trágico.
Poética, XIV.

Friday, November 12, 2010

a lição de Auerbach

é no Epílogo que Auerbach nos deixa saber que compôs o seu Mímesis apesar da falta de uma biblioteca. É sabido também que seu livro suporta a incompletude do fragmento. Fez com a falta, portanto. E, no início, era a cicatriz.

Thursday, October 28, 2010

Dilma Lá


Tentei postar o clipe que traz de novo à memória antigas batalhas, atualizadas no Dilma lá.
Tentei postar o discurso do Lula de 18/10/2010 em que faz um lúcido e belíssimo balanço de seu governo, pensando o seu lugar na história.
Mas posto aqui a foto "roubada" de outro blog. Nela já há uma legenda, mas se eu pudesse deixaria a minha: "O que estraga a felicidade é o medo."
No domingo, de vermelho, irei depositar meu voto de esperança em Dilma e de agradecimento a Lula.

Friday, October 22, 2010

Diane Arbus

Buñuel, quando indagado, certa feita, sobre o motivo por que fazia filmes, respondeu que era "para mostrar que este não era o melhor dos mundos possíveis." Arbus tirou fotos para mostrar algo mais simples - que existe outro mundo.
Susan Sontag, Sobre a fotografia

Sunday, October 10, 2010

Comer...

Para uma noite despretensiosa de sábado, nada mal: lanche com os amigos, chocolates, filme de entretenimento. Mas Comer, rezar, amar passa dos limites daquilo que posso suportar de clichê e de auto-ajuda. Se ainda fosse só a narrativa, mas as reflexões da narradora, da primeira à última, são de vomitar. Não vale o ingresso, o mau-humor com o filme só não foi total por algumas imagens de Roma que causaram saudade e desejo.

Claro, a noite de sábado contrastou com as suas predecessoras, a de quinta e a de sexta, em tudo, diferentes da bobagem autocomplacente de Comer, Rezar, Amar.

De qualquer modo, hoje comecei o dia com Proust. Antídoto.

Wednesday, October 6, 2010

dia a dia

e o Caetano fez 2 anos. E a mãe muitos outros. Contas pagas. Textos lidos e textos escritos. Um curso a quatro mãos. Potência e ato. As eleições, uma queda, uma virose, um arranhão de gato.

E essa alegria difícil e quase silenciosa, mas que se chama alegria:

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.

Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.



Amanhã:

Saturday, September 25, 2010

Friday, September 24, 2010

sobrinhas

hoje a Laurinha ficou sabendo que o irmão, é, na verdade, uma irmãzinha, seu nome: Teresa.

Thursday, September 23, 2010

Primavera

Aprendi com a primavera; a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.
Cecília Meireles

no fim da manhã um dos meus passeios prediletos: Livraria Leonardo da Vinci, Centro do Rio. Não é em shopping, mas no subsolo de uma galeria perto da Biblioteca Nacional. Eu me deixo ficar um pouco, mas nada demais. Tempo suficiente para falar outra língua. Deixo um livro na estante para voltar depois. Os livros na bolsa. A multidão. Não penso em nada. Em casa, que por ser outra-casa não deixa de ser minha -como a livraria, me deito com eles, os livros. Os gatos. Baudelaire. Um sono bom. Uma ligação boa de receber. Um dia bom de viver.

Distraidamente.

Tuesday, September 21, 2010

Meio passo

e na noite seguinte sonhei com sepulturas. E alguma coisa talvez tenha andado.

E tudo mais é um cansaço enorme no corpo e uma cabeça em hiperfuncionamento.

Sunday, September 19, 2010

tijolo por tijolo

em um texto que leio mais ou menos pela quinta vez, encontro: "[...] como em dores, ainda privadas de sepulturas [...]" G. Genette.

Porque talvez diga dessa impressão de que nenhuma sepultura foi ainda construída.

Tuesday, September 14, 2010

sem lugar

uma vez enviados os dados dos voos, me dei conta de que não tinha colocado nem lugar de partida, nem lugar de chegada.

Saturday, September 11, 2010

fim do mundo

ontem à noite minha mãe lembrou:
- Mãe, Valença é o fim do mundo?
- por que minha filha?
- porque a gente vai pra praia e volta pra Valença, vai pro Rio e volta pra Valença...
- Mas é que a gente mora aqui.

Acho que ela não conseguiu me convencer de que não era. E eu? Eu fugi.

Monday, September 6, 2010

Primo Levi

uma amiga fala em férias subjetivas. Às vezes, quando me pego pensando que eu bem que merecia uma trégua (nas emoções, nos compromissos, nas contas), me lembro do título do livro de Primo Levi, me lembro da leitura penosa (é verdade, menos penosa que a de É isto um homem?) e volto atrás.

Sunday, September 5, 2010

Ruth Klüger

depois de cinco anos de convivência, parece-me que estou encerrando o meu primeiro texto sobre Paisagens da memória, de Ruth Klüger. Parece-me o texto mais bonito que escrevi. Texto escrito entre amigos e alunos da Unicamp e da UFRJ. Texto que deu forma ao novo memorial. Texto que se abre e se fecha e se abre novamente com um amor improvável. Texto que nada mais é que tropo. Desvio para acertar o alvo. Sem jamais acertar. Errância. Mas também ancoragem, quando só há as ondas e o vento que enregela os ossos.

Thursday, August 26, 2010

a educação pela pedra

ou de como fica difícil respirar e ver com as retinas fatigadas

Sunday, August 22, 2010

porteiros

alguns leitores talvez se lembrem que há muitos anos atrás, nos tempos de apartamento amarelo, L. e eu tivemos um porteiro filósofo, acho que heideggeriano, dada a sua obsessão com o ser-para-a-morte. Entre idas e vindas, me dei conta de que a portaria aqui estava bastante modificada. Inicialmente, resisti às mudanças e me limitava a cumprimentar, mas sou uma pessoa que espera taxi. E foi numa dessas esperas que comecei a conversar com o Sr.J. Aí, ele comentou sobre os livros que chegavam nas caixinhas da Livraria Cultura e que ele gostava de ler. Romances policiais. Então, eu logo ofereci um pra ele. Envergonhada pela minha pressa, fingi esquecer. Até que anteontem, ele me lembrou. Eu desci com o Garcia-Roza, presente de G.D. Pois bem, ontem faltava ao Sr. J. apenas 10 páginas para terminar o romance. O comentário dele: Que narrativa envolvente.

Pois bem, se o ser-para-a-morte era algo que emprestei ao outro para traduzir sua angústia diante da morte, o Sr.J. disse sim narrativa e não estória. Ele tem a voracidade e o conceito. E, talvez, o mais importante, a gentileza que marca uma boa conversa.

Wednesday, August 18, 2010

da arte de fechar portas

eu estava aqui estudando e, então, um fragmento de Adorno falando sobre a violência em bater uma porta sem olhar para a casa que nos acolheu. Fiquei terrivelmente emocionada. Comecei a escrever um post sobre isso. Apaguei. De repente, muitas portas se interpuseram entre o monitor e eu: o barulho execrado das portas fechadas com brutalidade, as portas que me deram imenso trabalho e dor para serem fechadas, aquelas que eu achei que não conseguiria fechar e aquelas que achei que jamais abriria. As que se abriram a custa de muito trabalho mas que, maravilhosamente, pareciam ser abertas pelo acaso. As portas que se abrem apenas com a condição de que tantas outras tenham sido fechadas. As portas das casas que perdi. A porta que abro com o coração feliz e/ou aos saltos. A porta diante da qual estou e nem mesmo sei se está reservada para mim, lembrando Kafka diante da lei.

Thursday, August 12, 2010

no silêncio

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.

Cecilia Meireles

Para G.D., pelos conflitos cabralinos

Dúvidas Apócrifas de Marianne Moore

Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?

Não haverá nesse pudor
de falar-me de uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?

A coisa de que falar
até onde está pura ou impura?
Ou sempre se impõe, mesmo impura-
mente, a quem dela quer falar?

Como saber, se há tanta coisa
de que falar ou não falar?
E se o evitá-la, o não falar,
é forma de falar da coisa?

João Cabral de Melo Neto

Wednesday, August 11, 2010

quanto vale?

Checkn in da Azul, numa manhã fria de domingo, em Campinas. Na mala, toda aquela documentação comprobatória: publicações, periódicos, anais de congressos, certificados, etc. E a moça maquiada e alinhada (o casaco longo de frio me dá uma sensação estranha de que ela pertence a SS) pergunta: - Despachando algum objeto de valor? Minha resposta imediata: - Não.

Saturday, August 7, 2010

o post abaixo

ao lado de um ele, quando já nem queria mais estar ali, ouvi a música. Depois tentei encontrá-la: google, youtube, cantarolando para uma amiga. Nada.

Na quinta-feira, depois de uma semana pesadérrima, deitei no sofá, me aqueci e coloquei 9 1/2 weeks (no orginal não há a palavra love!) no DVD. Estava entre simplesmente curtir e achar óbvio demais os gestos do moço, até que: eis a música. E, de repente, lá estava eu dançando com um outro ele, de olhos bem fechados. E aí tudo mais foi presente do acaso e do encontro quando se está simplesmente distraído.

Aí o telefone toca.

PS: talvez a minha amiga MVGV diga que a música é de motel. Eu vou rir e continuar ouvindo até enjoar e voltar para os clássicos.

9 1/2 weeks - slave to love

Thursday, August 5, 2010

Sem resposta

estão lá nos sonhos: os quadrinhos e a mensagem no celular que não consigo ler, a ligação que não consigo fazer.

É para ler? Como ler?

Na volta da sessão, fiquei pensando nas discussões do Grupo sobre A fugitiva, de Proust. Como suportar a ausência de resposta sem ciúme e sem se sentir traído pelo Outro? Como não fazer do não-saber um saber?

Wednesday, August 4, 2010

da vida moral à vida ética

em dias de luta para reescrever o Memorial, retorno a um de meus passados, àquele a que chamei de Passagem efêmera. Em algum momento, encontro um post intitulado "Aposta":

no só-depois da angústia eu pude ler em Agamben: "Ética não é a vida que simplesmente se submete à lei moral, mas a que aceita, irrevogavelmente e sem reservas, pôr-se em jogo nos seus gestos. Mesmo correndo o risco de que, dessa maneira, venham a ser decididas, de uma vez por todas, a sua felicidade e a sua infelicidade.

Tuesday, August 3, 2010

Toy Story 3

o garoto vai para a faculdade - o que fazer com os antigos brinquedos? Qual o seu destino? O sótão? A doação? O lixo? As crianças, se não indistintas brincando na creche, individualizadas, brincam sozinhas.

Com quem vc se identifica? Com o garoto que parte? Com os brinquedos cujo destino possível é o esquecimento e o lixo? Com a criança que brinca sozinha?

O final, relativamente feliz, não apazigua a melancolia da despedida, do esquecimento, da solidão.

Monday, August 2, 2010

julho aos pedaços

julho foi o mês dos sonhos trabalhosos. Nem eu, nem meu inconsciente tiraram férias.

lá na sessão, precisei dizer de uma parte do memorial que não me serve mais. Amanhã, começo. Da página em branco.

agora, agorinha mesmo, lá estava eu, uma bixete em Blumenau.

sonhei que um ele me dava de presente a minha vida em história em quadrinhos. No primeiro, a menina no balanço diz: - que casa estranha! O último quadrinho, claro, é segredo. É futuro.

e, numa cena precedente, a avó era japonesa.

uma peça de Shakespeare vem para dizer de um capítulo censurado na minha história. Filiações.

Friday, July 16, 2010

entre

a uma amiga que me pergunta se está tudo em paz, respondo que estou entre a serenidade e o desassossego.

Monday, July 12, 2010

o conto

e há aquele conto da Clarice em que no final não era mais a menina com seu livro, mas a mulher com seu amante. E que, se não me falha a memória, se chama "Felicidade clandestina". Quem leu sabe.

com rima e com razão

- tia Tá eu fiz uma rima.
- Fala!
- Perdeu/eu
- Ah...

Friday, July 9, 2010

eles, os pequenos

depois de ganhar uma maleta de médico, na escola ela precisava se fantasiar daquilo que quer ser quando crescer, Laurinha recebe a notícia: vc vai ganhar um irmãozinho. Algum tempo depois eu apareço na sala, nos olhamos, eu sento no sofá, ela coloca parte do estetoscópio no meu ouvido, outro no seu coração: "Tia Tá, escuta." Estou escutando. Agora me dá um abraço.

Sob as ordens do pai, Caetano fala alemão no telefone. É só enrolar a língua e emitir ruídos ininteligíveis.

Wednesday, July 7, 2010

quase

quase terminando o semestre. Quase terminando uma arguição, quase terminando a correção das provas.

É a Laurinha quem (quase)nota: "- Tia Tá, por que vc está rindo?"

E é quase final de semana.

E ontem falei com uma grande amiga de adolescência como se tivéssemos nos falado quase ontem.

Tuesday, June 29, 2010

Pascal e eu

só depois me dei conta de que tinha apostado. O meu problema como apostadora nunca foi o medo de perder, pois a moça simplesmente não tem, mas de ganhar.

Lá no Houaiss:
Locuções
a. de Pascal
Rubrica: filosofia.
segundo o filósofo francês Pascal (1623-1662), suposição a respeito da existência de Deus que, afastando-se de qualquer convicção fundamentada na fé ou na argumentação teológica, é formulada como uma aposta: deve-se arriscar a possibilidade de um erro sem maiores conseqüências e acreditar em Deus, pois assim se ganha infinitamente mais - a própria felicidade eterna - caso Ele de fato exista

Uma faca só lâmina

talvez São Bernardo tenha sido um dos livros a que mais resisti. A contundência e a solidão são absolutas:

"E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que horas, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos."

Sunday, June 27, 2010

essas ruínas circulares

tão bom ler um texto sobre Borges, de um aluno a quem apresentei Borges. Melhor ainda quando o texto passa por Persona. O filme não fui eu quem apresentei, mas através dele quis me fazer presente a um amiga que tanto Borges me deu e que tantas ficções inventa comigo.

PS: No mesmo texto um fragmento de O amante, de Duras, e uma leitura iluminada dele.

Thursday, June 24, 2010

alguns anos depois do fim

foi V.A. quem me lembrou deste poema:

Resíduo
Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco


Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).


Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.


Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.


Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.


Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.


Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?


Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.


De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.


E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.


Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
*** ***

Nem que seja a lembrança deste dia.

Mas é outono

e as palavras que os amigos nos sopram são cartas que chegam ao seu destino, basta tirar a cera dos ouvidos e escutá-las. Obrigada, Vi.

Wednesday, June 23, 2010

fim de semestre ou uma questão de timing

depois de Dante e Cervantes, hoje um dos cursos se encerrou com Romeu e Julieta. Eu feliz por ter finalizado, alguns alunos querendo extensão. Um outro encerrei amanhã com o canto/silêncio das sereias.

Ontem, na palestra do tradutor de Dostoievski, entre as lembranças das manhãs em que líamos Crime e Castigo, um provérbio russo:

"É melhor sair sem despedir-se do que esquecer-se de ir embora."

E ele não sabia que L.D. havia morrido. Há aqueles que partem cedo demais.

Saturday, June 12, 2010

No dia dos namorados

deixo aqui, na tradução de Augusto de Campos, um de meus poemas de amor preferidos:

Em despedida: proibindo o pranto
John Donne

Como esses santos homens que se apagam
Sussurrando aos espíritos: "Que vão...",
Enquanto alguns dos amigos amargos
Dizem: "Ainda respira." E outros: "Não." —

Nos dissolvamos sem fazer ruído.
Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,
Fora profanação nossa ao ouvido
Dos leigos descerrar todo este encanto.

O terremoto traz terror e morte
E o que ele faz expõe a toda a gente,
Mas a trepidação do firmamento,
Embora ainda maior, é inocente.

O amor desses amantes sublunares
(Cuja alma é só sentidos) não resiste
A ausência, que transforma em singulares
Os elementos em que ele consiste.

Mas a nós (por uma afeição tão alta,
Que nem sabemos do que seja feita,
Interassegurado o pensamento)
Mãos, olhos, lábios não nos fazem falta.

As duas almas, que são uma só,
Embora eu deva ir, não sofrerão
Um rompimento, mas uma expansão,
Como ouro reduzido a aéreo pó.

Se são duas, o são similarmente
Às duas duras pernas do compasso:
Tua alma é a perna fixa, em aparente
Inércia, mas se move a cada passo

Da outra, e se no centro quieta jaz,
Quando se distancia aquela, essa
Se inclina atentamente e vai-lhe atrás,
E se endireita quando ela regressa.

Assim serás para mim que pareço
Como a outra perna obliquamente andar.
Tua firmeza faz-me, circular,
Encontrar meu final em meu começo.

Friday, June 11, 2010

Insetos daninhos

depois de A paixão segundo G.H., depois de A metamorfose, em alguma sala de aula de uma ilha, uma aluna pergunta:
- Professora, mas de onde vem tanto fascínio pelas baratas?
- Falo de baratas, para não falar de ratos. Outro tropo, desvio. Retórica. Não é disso que se trata esse curso?

Tuesday, June 8, 2010

Não me somo

enquanto uma metade trabalha incansavelmente para dar certo, a outra se fustiga quando dá.

Sunday, June 6, 2010

Em resumo:

o que estraga a felicidade é o medo.
Clarice Lispector

Friday, June 4, 2010

São Luís - Brasília - Rio

também teria a história do patinho feio, num almoço com italianos, fui reconhecida e descobri o significado para um de meus sobrenomes. Muito obrigada, mas prefiro o que desliza.

No aeroporto, diante do desconcerto do taxista com o peso da minha mala, eu digo que são livros, e ele me pergunta: "A senhora, é professora ou é escritora?". E ele emenda dizendo que professor é mal pago, que se livro valesse como ouro. Secretamente converso com ele: moço, sou pobre de recursos, mas rica em volúpia.

Agora vou cuidar dos gatos.

Saturday, May 29, 2010

em São Luís

foi só dizer que eu queria conhecer a igreja de Sto Antonio que no fim do dia um aluno aparece de surpresa(com a Vida e Obra de Vieira por J.F. Lisboa, um maranhense)para o passeio. E lá estava eu, presenteada, no lugar em que Vieira proferiu o sermão de Santo Antonio aos Peixes.

O centro histórico é um lugar com muitos gatinhos e algumas mulheres loucas.

E como um lugar remete a outro, às vezes, sinto saudades de Salvador. Foi assim ontem diante de uma cesta de camarões secos.

Daqui a pouco, vou sair para comer carne de sol.

Sunday, May 23, 2010

Ao norte

daqui a pouco: Viracopos - Galeão - São Luís.


As malas são um velho hábito. Algumas atenções e cuidados, não.

Saturday, May 22, 2010

janelas abertas

e, então, sem sair do tom:
Me deixa morar neste azul
Me deixa encontrar minha paz
Se ao menos pudesse saber

porque hoje é sábado
e porque, às vezes,
a vida fica tão recíproca

Wednesday, May 19, 2010

Heloísa e Abelardo

Porque Heloísa nunca se arrependeu:

"Longe de gemer as faltas que cometi, penso suspirando naquelas que não pude cometer."

Porque o livro de Gilson é uma preciosidade:

"Relata-se que, pouco tempo antes de sua morte, Heloísa tomara as disposições necessárias para ser enterrada com Abelardo. Quando se abriu o túmulo para ali a sepultar junto dele, ele estendeu os braços para acolhê-la, e cingiu-os estreitamente sobre ela. Assim contada, a história é bela, mas, lenda por lenda, acreditaríamos mais facilmente que, ao se unir ao amigo no túmulo, Heloísa tenha aberto os braços para abraçá-lo."

E porque o curso segue, depois vem O inferno de Dante.

Sunday, May 16, 2010

Paris - "que pelo olhar nos arrebata a mente"

É um quadro que vive de sua fama. E a sua reprodução nauseante. Eis o pensamento que, enquanto eu me aproximava, me defendia da Monalisa. Em volta, os japoneses e suas câmeras. Procuro uma brecha para ver. Mas a questão não era essa, não era ver. É que abruptamente fui olhada. E o instante e a obra tornaram-se irreproduzíveis.

Rio-Campinas

Não me lembro mais se era pra ser uma aula sobre memória. Era uma aula sobre Clarice e comecei por Proust. Outono na cidade do Rio de Janeiro, 2010. Um ele, na semana anterior, me perguntara se a morte de L.D. me deixara muito triste. Sim, mas me fez trabalhar. E o restante da semana, eu passara tentando lembrar o perfume, as manhãs de 1994 em Campinas. E então, de repente, um aluno entra e senta: eis o perfume procurado em vão e, agora, por puro acaso, encontrado. No Rio, 2010, toda Campinas, 1994, sai do meu copo de café. Um curto-circuito nos dêiticos que só Virginia saberia escrever aqui. Lá e Alhures.

Voltando, uma resposta a G.A.

transcrevo o "apelo" feito no Blogue do Gabriel no dia 16 de abril:


A gente continua por causa de uma ilusão mesmo.

F. T. manteve, nos últimos dois anos, dois blogs muito charmosos. O primeiro, Sou a Espuma, era o favorito de todo mundo. Eu comentava sobre a Espuma com amigos e, pronto, estavam todos viciados no blog. No Sou a Espuma uma melancolia chic recebia as palavras certas. Sem afetações. As referências às boas escritoras nos obrigavam a reler os clássicos, todos os dias. Quantas pessoas se trancaram em quartos semi-escuros com Clarice Lispector e Virginia Woolf só pra entender as razões do texto de F.T.? Quem ousava pisar na espuma trazida pelas ondas em cada visita ao mar-oceano se incorria no risco de se pisar em epifanias do blog? A catarse de todos nós estava sempre ali: na busca por suas razões indizíveis.
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O segundo é Passagem efêmera. O título de bilhete de suicida escondia uma conexão: a da literatura com a vida cotidiana. Cinema, fotografia, música e livros intercalados com o cotidiano de uma solidão, depois um exílio na própria na terra (RJ), depois a vida acadêmica (refúgio para os dois mundos). Um dia desses, Passagem saiu do ar. E muito se foi.
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Quando volta?