Thursday, August 26, 2010

a educação pela pedra

ou de como fica difícil respirar e ver com as retinas fatigadas

Sunday, August 22, 2010

porteiros

alguns leitores talvez se lembrem que há muitos anos atrás, nos tempos de apartamento amarelo, L. e eu tivemos um porteiro filósofo, acho que heideggeriano, dada a sua obsessão com o ser-para-a-morte. Entre idas e vindas, me dei conta de que a portaria aqui estava bastante modificada. Inicialmente, resisti às mudanças e me limitava a cumprimentar, mas sou uma pessoa que espera taxi. E foi numa dessas esperas que comecei a conversar com o Sr.J. Aí, ele comentou sobre os livros que chegavam nas caixinhas da Livraria Cultura e que ele gostava de ler. Romances policiais. Então, eu logo ofereci um pra ele. Envergonhada pela minha pressa, fingi esquecer. Até que anteontem, ele me lembrou. Eu desci com o Garcia-Roza, presente de G.D. Pois bem, ontem faltava ao Sr. J. apenas 10 páginas para terminar o romance. O comentário dele: Que narrativa envolvente.

Pois bem, se o ser-para-a-morte era algo que emprestei ao outro para traduzir sua angústia diante da morte, o Sr.J. disse sim narrativa e não estória. Ele tem a voracidade e o conceito. E, talvez, o mais importante, a gentileza que marca uma boa conversa.

Wednesday, August 18, 2010

da arte de fechar portas

eu estava aqui estudando e, então, um fragmento de Adorno falando sobre a violência em bater uma porta sem olhar para a casa que nos acolheu. Fiquei terrivelmente emocionada. Comecei a escrever um post sobre isso. Apaguei. De repente, muitas portas se interpuseram entre o monitor e eu: o barulho execrado das portas fechadas com brutalidade, as portas que me deram imenso trabalho e dor para serem fechadas, aquelas que eu achei que não conseguiria fechar e aquelas que achei que jamais abriria. As que se abriram a custa de muito trabalho mas que, maravilhosamente, pareciam ser abertas pelo acaso. As portas que se abrem apenas com a condição de que tantas outras tenham sido fechadas. As portas das casas que perdi. A porta que abro com o coração feliz e/ou aos saltos. A porta diante da qual estou e nem mesmo sei se está reservada para mim, lembrando Kafka diante da lei.

Thursday, August 12, 2010

no silêncio

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.

Cecilia Meireles

Para G.D., pelos conflitos cabralinos

Dúvidas Apócrifas de Marianne Moore

Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?

Não haverá nesse pudor
de falar-me de uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?

A coisa de que falar
até onde está pura ou impura?
Ou sempre se impõe, mesmo impura-
mente, a quem dela quer falar?

Como saber, se há tanta coisa
de que falar ou não falar?
E se o evitá-la, o não falar,
é forma de falar da coisa?

João Cabral de Melo Neto

Wednesday, August 11, 2010

quanto vale?

Checkn in da Azul, numa manhã fria de domingo, em Campinas. Na mala, toda aquela documentação comprobatória: publicações, periódicos, anais de congressos, certificados, etc. E a moça maquiada e alinhada (o casaco longo de frio me dá uma sensação estranha de que ela pertence a SS) pergunta: - Despachando algum objeto de valor? Minha resposta imediata: - Não.

Saturday, August 7, 2010

o post abaixo

ao lado de um ele, quando já nem queria mais estar ali, ouvi a música. Depois tentei encontrá-la: google, youtube, cantarolando para uma amiga. Nada.

Na quinta-feira, depois de uma semana pesadérrima, deitei no sofá, me aqueci e coloquei 9 1/2 weeks (no orginal não há a palavra love!) no DVD. Estava entre simplesmente curtir e achar óbvio demais os gestos do moço, até que: eis a música. E, de repente, lá estava eu dançando com um outro ele, de olhos bem fechados. E aí tudo mais foi presente do acaso e do encontro quando se está simplesmente distraído.

Aí o telefone toca.

PS: talvez a minha amiga MVGV diga que a música é de motel. Eu vou rir e continuar ouvindo até enjoar e voltar para os clássicos.

9 1/2 weeks - slave to love

Thursday, August 5, 2010

Sem resposta

estão lá nos sonhos: os quadrinhos e a mensagem no celular que não consigo ler, a ligação que não consigo fazer.

É para ler? Como ler?

Na volta da sessão, fiquei pensando nas discussões do Grupo sobre A fugitiva, de Proust. Como suportar a ausência de resposta sem ciúme e sem se sentir traído pelo Outro? Como não fazer do não-saber um saber?

Wednesday, August 4, 2010

da vida moral à vida ética

em dias de luta para reescrever o Memorial, retorno a um de meus passados, àquele a que chamei de Passagem efêmera. Em algum momento, encontro um post intitulado "Aposta":

no só-depois da angústia eu pude ler em Agamben: "Ética não é a vida que simplesmente se submete à lei moral, mas a que aceita, irrevogavelmente e sem reservas, pôr-se em jogo nos seus gestos. Mesmo correndo o risco de que, dessa maneira, venham a ser decididas, de uma vez por todas, a sua felicidade e a sua infelicidade.

Tuesday, August 3, 2010

Toy Story 3

o garoto vai para a faculdade - o que fazer com os antigos brinquedos? Qual o seu destino? O sótão? A doação? O lixo? As crianças, se não indistintas brincando na creche, individualizadas, brincam sozinhas.

Com quem vc se identifica? Com o garoto que parte? Com os brinquedos cujo destino possível é o esquecimento e o lixo? Com a criança que brinca sozinha?

O final, relativamente feliz, não apazigua a melancolia da despedida, do esquecimento, da solidão.

Monday, August 2, 2010

julho aos pedaços

julho foi o mês dos sonhos trabalhosos. Nem eu, nem meu inconsciente tiraram férias.

lá na sessão, precisei dizer de uma parte do memorial que não me serve mais. Amanhã, começo. Da página em branco.

agora, agorinha mesmo, lá estava eu, uma bixete em Blumenau.

sonhei que um ele me dava de presente a minha vida em história em quadrinhos. No primeiro, a menina no balanço diz: - que casa estranha! O último quadrinho, claro, é segredo. É futuro.

e, numa cena precedente, a avó era japonesa.

uma peça de Shakespeare vem para dizer de um capítulo censurado na minha história. Filiações.