Tuesday, June 29, 2010

Pascal e eu

só depois me dei conta de que tinha apostado. O meu problema como apostadora nunca foi o medo de perder, pois a moça simplesmente não tem, mas de ganhar.

Lá no Houaiss:
Locuções
a. de Pascal
Rubrica: filosofia.
segundo o filósofo francês Pascal (1623-1662), suposição a respeito da existência de Deus que, afastando-se de qualquer convicção fundamentada na fé ou na argumentação teológica, é formulada como uma aposta: deve-se arriscar a possibilidade de um erro sem maiores conseqüências e acreditar em Deus, pois assim se ganha infinitamente mais - a própria felicidade eterna - caso Ele de fato exista

Uma faca só lâmina

talvez São Bernardo tenha sido um dos livros a que mais resisti. A contundência e a solidão são absolutas:

"E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que horas, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos."

Sunday, June 27, 2010

essas ruínas circulares

tão bom ler um texto sobre Borges, de um aluno a quem apresentei Borges. Melhor ainda quando o texto passa por Persona. O filme não fui eu quem apresentei, mas através dele quis me fazer presente a um amiga que tanto Borges me deu e que tantas ficções inventa comigo.

PS: No mesmo texto um fragmento de O amante, de Duras, e uma leitura iluminada dele.

Thursday, June 24, 2010

alguns anos depois do fim

foi V.A. quem me lembrou deste poema:

Resíduo
Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco


Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).


Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.


Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.


Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.


Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.


Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?


Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.


De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.


E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.


Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
*** ***

Nem que seja a lembrança deste dia.

Mas é outono

e as palavras que os amigos nos sopram são cartas que chegam ao seu destino, basta tirar a cera dos ouvidos e escutá-las. Obrigada, Vi.

Wednesday, June 23, 2010

fim de semestre ou uma questão de timing

depois de Dante e Cervantes, hoje um dos cursos se encerrou com Romeu e Julieta. Eu feliz por ter finalizado, alguns alunos querendo extensão. Um outro encerrei amanhã com o canto/silêncio das sereias.

Ontem, na palestra do tradutor de Dostoievski, entre as lembranças das manhãs em que líamos Crime e Castigo, um provérbio russo:

"É melhor sair sem despedir-se do que esquecer-se de ir embora."

E ele não sabia que L.D. havia morrido. Há aqueles que partem cedo demais.

Saturday, June 12, 2010

No dia dos namorados

deixo aqui, na tradução de Augusto de Campos, um de meus poemas de amor preferidos:

Em despedida: proibindo o pranto
John Donne

Como esses santos homens que se apagam
Sussurrando aos espíritos: "Que vão...",
Enquanto alguns dos amigos amargos
Dizem: "Ainda respira." E outros: "Não." —

Nos dissolvamos sem fazer ruído.
Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,
Fora profanação nossa ao ouvido
Dos leigos descerrar todo este encanto.

O terremoto traz terror e morte
E o que ele faz expõe a toda a gente,
Mas a trepidação do firmamento,
Embora ainda maior, é inocente.

O amor desses amantes sublunares
(Cuja alma é só sentidos) não resiste
A ausência, que transforma em singulares
Os elementos em que ele consiste.

Mas a nós (por uma afeição tão alta,
Que nem sabemos do que seja feita,
Interassegurado o pensamento)
Mãos, olhos, lábios não nos fazem falta.

As duas almas, que são uma só,
Embora eu deva ir, não sofrerão
Um rompimento, mas uma expansão,
Como ouro reduzido a aéreo pó.

Se são duas, o são similarmente
Às duas duras pernas do compasso:
Tua alma é a perna fixa, em aparente
Inércia, mas se move a cada passo

Da outra, e se no centro quieta jaz,
Quando se distancia aquela, essa
Se inclina atentamente e vai-lhe atrás,
E se endireita quando ela regressa.

Assim serás para mim que pareço
Como a outra perna obliquamente andar.
Tua firmeza faz-me, circular,
Encontrar meu final em meu começo.

Friday, June 11, 2010

Insetos daninhos

depois de A paixão segundo G.H., depois de A metamorfose, em alguma sala de aula de uma ilha, uma aluna pergunta:
- Professora, mas de onde vem tanto fascínio pelas baratas?
- Falo de baratas, para não falar de ratos. Outro tropo, desvio. Retórica. Não é disso que se trata esse curso?

Tuesday, June 8, 2010

Não me somo

enquanto uma metade trabalha incansavelmente para dar certo, a outra se fustiga quando dá.

Sunday, June 6, 2010

Em resumo:

o que estraga a felicidade é o medo.
Clarice Lispector

Friday, June 4, 2010

São Luís - Brasília - Rio

também teria a história do patinho feio, num almoço com italianos, fui reconhecida e descobri o significado para um de meus sobrenomes. Muito obrigada, mas prefiro o que desliza.

No aeroporto, diante do desconcerto do taxista com o peso da minha mala, eu digo que são livros, e ele me pergunta: "A senhora, é professora ou é escritora?". E ele emenda dizendo que professor é mal pago, que se livro valesse como ouro. Secretamente converso com ele: moço, sou pobre de recursos, mas rica em volúpia.

Agora vou cuidar dos gatos.