Tuesday, June 8, 2010

Não me somo

enquanto uma metade trabalha incansavelmente para dar certo, a outra se fustiga quando dá.

1 comment:

  1. Relendo esse post

    Mestrado. Linguística. Trabalho de fim de curso. Analisar a conjunção "mas" no conto "O búfalo", de Clarice Lispector. O conto começa assim:

    Mas era primavera.

    O que fazer com isso? O que fazer aí com a lógica do "p mas q" quando p não há, ou melhor, há, mas não um p. Mas q, adversativa a nada. A conjunção mas, por retroação, tenta mascarar esse vazio. Escrevi-a assim:

    ___ mas q

    e mais tudo que pudesse tapar esse buraco, ponto por ponto, cerzi-lo: a doçura da girafa, a alegria dos macacos, o amor do leão, todos os nomes do amor... Até que, entre essas máscaras do vazio, Clarice encontra o contraponto, o ódio, no negro dos olhos do búfalo, o vazio da máscara

    ___ mas ___

    e mais nada. O mas conjuga, em seu movimento de retroação, um vazio a outro. Resta então um "mais", do horror, de seu corpo na terra, apostrofando o céu de sua vertigem. Isso digo hoje com outras palavras, em que posso reconhecer, enfim, o horror dessa libertação. O mas, que deveria barrar, presentifica o vazio adverso, sobrepondo-lhe outro vazio, o vazio do Outro, dissolvendo-se

    ___________

    em linha cujo contínuo escreve o fim dos pulsos da vida. É isso que vai além da argumentação, esse mais. É isso que toca, por exemplo, à linguística deixar de lado. A psicanálise oferece esse impossível como um espaço de possibilidade, como um saber em fracasso...

    Mas só aos poetas é dado bendizê-lo.

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